terça-feira, 17 de maio de 2011

Terça-feira, por favor!

De uma hora pra outra me pego falando sozinha, de uma hora pra outra me pego falando besteiras, enchendo os ouvidos alheios, transbordando... de uma hora pra outra me pego tomando vinho em plena terça-feira de febre terçã! Essa malária de vida! E me pego ensandecida, indignada, um tanto quanto desconchava, inconformada, com um “de-que-me-adianta ” a ressoar aos ouvidos, a me cheirar as narinas, a me fazer cócegas nos mindinhos... O mundo não é dos inteligentes: já dizia a tevê aberta com toda sua imposição de vida... Inteligência não serve para nada... apenas para se perceber, se ter a sincera noção do quanto se usa ferraduras, é para ser um descerebrado com atestado de incapacidade plena, é para receber o diploma de ruminante e “a” caráter, de beca, apertar com orgulho a mão da consciência e caminhar pela vida em quatro patas feliz. Melhor seria viver na venturosa e bela terra dos plenamente, sabidamente, incapazes... daqueles que acham o seu pouco o pedaço do céu e partilham de suas infrutíferas alegrias com seus iguais, eles sim tem noção de felicidade plena, felicidade boba, alegria de criança quando a mãe deixa entrar na piscina mesmo sendo depois do almoço. E isso é tudo que me vem a mente numa terça-feira trivial, com gosto de feijão com arroz e sal em que só me resta filosofias de guardanapo de botequim enamorada por beijos de taça de vinho.
Por, Hilda de Queiroz

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Conclusões de vinte e oito de abril de dois mil e onze


Entre quem Ela foi, quem almeja ser e quem é há tantas reentrâncias, tantas discórdias, momentos doces de delírios e uma realidade que traiçoeiramente rege a vida a seu modo. Ao olhar pra trás se impressiona que com tanta pouca idade já tenha toda uma vida pra contar. E que vida. De histórias loucas, de momentos tristes embalados de felicidade: tudo pra presente, por isso embalados... de uma realidade crua, mas rica em expectativas que Ela mesma foi quem traçou pra si. Nesses momentos em que o sono foge, sonhar é ilusório demais, cômico, em que a realidade é insustentável, em que em nada há beleza, em que a queda de uma gota de água expande-se como a flor da bomba atômica, ela não se move, nem respira, nem sente o que se passa. A vida é um palhaço tocando sanfona numa corda bamba, não tem sentido algum, mas todo mundo pára pra ver. E Ela que hoje, só por hoje cansou tanto de tudo, de seus momentos rotos de esperanças. E só por hoje deu-se o direito de tentar ser infeliz e nem isso. O vácuo a invade e é. Lágrimas ela deixa pra quem as tem, infelicidade para quem sabe se lamentar(isso até é uma arte: cozer, planejar, cultivar injustiças) palavras a despeito de futuro nobre, hoje,apenas por hoje, Ela deixa pra aqueles que tem fé.

ENVELHECER
Antes todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

Mario Quintana

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Miscelânea


Hoje vi. Hoje vi um objeto que ainda tem nome de gente.

E, e sempre e... E ela que sofre e nem sabe por que ou pelo que. Só aquela angústia que bate misturada com desânimo, com mínima vontade. Se soubesse sorrir, bem que já soube, bem que já sorriu e achou beleza em muito, em vários e até no pouco, no mínimo. Nem sabe descrever o que tem e isso é terrível, pior, é constante. Sensação da ilusão de infância... presa numa caixa de cimento no fundo do mar. Angústia apenas. E nem angústia, mais desânimo mesmo... e nada do que um dia foi precioso e instigante é mais. Deitada em sua cama, observa fria e sem qualquer ressentimento a vida que passa de ninguém importante, as rugas que preenchem seu rosto, as formas de seu corpo. Deitada em sua cama não raciocina, nem tenta, nem nada. Quem vê assim, até acha que ela é infeliz e nem é não. Só que há muitos, muitos ecos de vários e vários momentos que ainda ressoam em seus ouvidos, em frente aos seus olhos e estão presentes e todo momento em lugares vãos, comuns: estão lá involuntariamente. E o que ela espera deitada em sua cama, observando desinteressada a tevê que não se cala por um segundo sequer e se esforça descomunalmente por atenção. Enquanto ela olha, os fios de vincos em seu rosto aprofundam e sua vida existe em canto nenhum.

A menina de cabelo amarelo com sede na boca, levanta-se com as mão a tremer, corre, corre, corre. Com os pés descalços sente as irregularidades do chão abaixo dos seus pés, mas também sente o tapa de realidade do vento em seu rosto, aquele aviso que ela estava viva. Meu Deus estou viva e um mundo funciona por ai. Pisa forte. O cabelo, ao contrário dos seus pés, voam e expressam a liberdade que seus membros inferiores se esforçam tanto por conseguir e nem sequer desconfiam que jamais conseguiram tamanha proeza, mas ninguém nega que eles se esforçam apaixonadamente por conseguir e bem que mereciam por tamanho esforço e fé. E ela que corre apenas se deixa levar, e deixa atrás de si o rastro de seus passos e no vento que até a pouco passou pelo seu rosto aquilo quem não tem nome, mas que pesa, vive.

A cada dia que me descubro, me surpreendo com as novas peripércias de mim mesma. Esse estranho e saboroso gosto pela solidão, a aptidão por amar tudo á distância. E assim é. De dentro da gaveta o que há são objetos organizados com esmero. De uma felicidade desnecessária, incompleta. Amiga de todos, a que não confia em ninguém: assim é.
Por,
Hilda de Queiroz

Canção aos passos


Olha lá... lá vai a vida passando entrecortada de amor. Momentos rudes de amor, momentos de amor frouxo, solto de barra de vestido. O amor passeia por ai. Quanto á paixão, confetes: aquele punhado de fascínio breve. A paixão é uma besta mesmo. Não é moléstia não, paixão não se pega por ai. A imaginação é que prega peças, apega a piegas ilusões, projeções, ao lúdico... ao “se fosse” dos insensatos, insanos. Paixão não é isso não! É uma besteirinha que dá de repente, de mal-me-quer, de Intensidade de polaroide. E quem disse que o amor passa?! Do contrário, fica, puxa cadeira, nada tem de linear. Ele é de tic-tac de relógio: de constância assombrante. Deixa a vida, sim, essa sim, de tão involuntária passar: entrecortada de amor encantada pelo efêmero fascínio dos confetes.

Por,
Hilda de Queiroz

domingo, 17 de abril de 2011

Ao bonitão das tapiocas


Juro que um dia consigo esconder minhas convicções sinceras, sem meias palavras e bem resolvidas por trás de longas madeixas e uma cintura fina. Ainda não aprendi a utilizar tais artefatos, pois sempre achei bonito e atraente ser inteligente, mas no mundo das pessoas do outro mundo, mundo mais estranho e este, sim, difícil de entender pela sua primitividade (se é que essa palavra existe) ao qual me interessa o fenótipo, tais atributos são essenciais. Sempre valorizei roupas confortáveis, um bom rabo de cavalo, unhas cortadas e uma pilha de livros e objetivos. Mas, hoje, que me pego surpreendentemente solteira, percebo como o mercado da cintura fina anda em alta, ter uma boa conversa é considerado “coisa” de homem, ter iniciativa é conduta de homem, ligar é tarefa de homem... Dai, pergunto fadigada, sisuda (cá com meu botão): “O que sobrou para mim?”. Acho que a cintura fina. Hoje, depois de ter experimentado por anos a fio o ideal feminino platônico de amor perfeito, depois de muito andar de mãos dadas aos domingos, ver a lua, ter romances embalados por belas músicas, trocado presentes no dia dos namorados, café da manhã na cama e afins, hoje, que tudo que procuro é um bom canalha para chamar de meu, percebo o quanto julgar alguém pela cara é um grande erro e, para isso, faço uso de um conto onde qualquer semelhança não é mera coincidência e que não, não existe um canalha em qualquer esquina. A bem da verdade está até difícil de encontrar.. não sei se porque no fundo por trás de todo “comprador de cigarros” há um futuro usuário de meias marrons e pai de família inveterado ou se mulheres de atitude castram a cafajestice masculina . Difícil. Sim, mas indo ao ponto ou ao conto, como queira:

E era domingo, noite de carnaval sem qualquer pretensão Ela saiu de casa. Sim, se arrumou. A moça em questão, famosa por sua alegria, pensamentos de vida própria e especificidade no que diz respeito a homens, ao longo da noite, entre confetes, serpentinas, mímicos e cirandas observou ao longe um ótimo exemplar da tal espécie, mas como não é de seu feitio aproximar-se de ninguém e puxar assunto, afinal, não via graça em trivialidades, cruzou as pernas e sentou-se despreocupada. Diante te tal ação, amigos a plantaram ao lado do tal rapaz, já que há muito se divertiam em encontrar o homem ideal (leia-se um poço enumerado de requisitos) para Ela. A partir daí, nada de incomum ou digno de nota ocorreu... só aquelas conversas banais de cortejo que todo mundo, até a Cinderela se não quisesse tanto se casar, sabe muito bem do que se trata. No desenrolar da noite, Ela em tudo correspondeu as expectativas de uma boa moça, deixou que ele lhe beijasse os lábios, não permitiu mãos bobas, desconversou sobre propostas indecentes e pedidos de telefone, pois, desde que Eva perverteu Adão só por amor a um Chanel, que se sabe que tal ato é totalmente sem futuro. Essa noite na manhã seguinte era caso encerrado, mas ao reencontrar os ditos amigos em uma mesa de almoço de família, inclusive, a pauta “o bonitão das tapiocas” veio à tona e, sem mais nem menos, nem se sabe de onde, se viu incentivada, encurralada, totalmente convencida a ligar para o tal moço quando a mãe (isso, a MÃE) de um dos amigos perguntou enfática:

- Quantos anos você tem?

Ela:

- 24

Mãe do amigo:

- Da sua idade já tinha dois filhos. Está na idade de fazer essas coisas mesmo, ligue para o rapaz.



Mãe é mãe e mãe se obedece, já diz o velho e bom livro preto. Ela ligou, o adicionou em sua rede social virtual e, a partir de então, munida do mais refinado e cítrico humor, as custas de muita iniciativa, pôs-se a aliciar o tal exemplar do sexo masculino com fortes argumentos. E adorou o fato de flertar descaradamente, sem qualquer meio termo. Então, totalmente convencida da firmeza de suas intenções, Ela fez-lhe propostas indecorosas, daquelas que se diz sussurradas ao pé do ouvido, exalando um bom perfume e firmadas por unhas sínicas que fingem passear despreocupadas por nucas alheias. Para sua surpresa, o suposto cafajeste não aceitou seu convite. Indignação. Ao que se saiba, um bom cafajeste/canalha que se prese não perde esse tipo de oportunidade. Dupla indignação. Logo ele, o bonitão das tapiocas, que em uma noite destas por ai se patenteou tão capaz e tanto lhe soprou aos ouvidos propostas em mesmo peso e medida. E logo tratou de cozer pensamentos típicos, alinhavados em dúvidas cruéis pondo em xeque a opção sexual do tal bonitão, se era sabidamente incompetente no que diz respeito a esses assuntos, se sua tapioca não era lá essas coisas (e Ele bem sabia disso) ou se simplesmente se tratava de um bom-moço-de-família. Em seguida, como toda boa mulher, se deparou com dúvidas quanto a sua autoimagem... Questionou-se quanto a circunferência de sua cintura, sua capacidade de diálogo, suas qualidades e habilidade em cortejar o sexo oposto e em nada percebeu uma postura digna de tal atitude.



Ela, que nunca foi boa em perdoar, possuída por uma entidade inominada (talvez loucura fosse seu nome, mas Ela jamais admitiria), tratou logo de escrever-lhe uma epistola a qual, diga-se de passagem, se não fosse feita por uma insana discutindo relação com um completo estranho, seria digna de moldura. Então, em um estalo, percebeu o óbvio: ele não era um cafajeste, mas, e ela... seria um? Não. Até a presente data. Mas, o que se percebe claramente é que, sim, Ela tem potencial. E eis que, tal qual Deus na gênese do universo, viu que isso era bom. Hum, Nada mal!



Desde então, Ela ainda é quem tem a iniciativa e segue vagarosamente enlaçando-o tal qual serpente, embora sabidamente tenha muito mais dom para Eva. Apesar da inefável obstinação por toda maça que deseja na vida, Ela sabe que ele é bom moço de família, de bons princípios. Que pena... Porque tudo que Ela queria e procurava nesse exato momento, era um bom canalha.



P.S: E bem que Ela disse que toda essa história ia dar em samba, digo, ciranda, melhor, em uma narrativa presunçosa que é pra ninguém dizer que foi mentira.



Por,



Hilda de Queiroz



Para: Tiago.





Cartas de Amor



Todas as cartas de amor são ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor, como as outras, ridículas.

As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas.

Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.



Fernando Pessoa

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Não. Eu não aceito!


Engraçado o que o mercado de mulheres que anseiam por um casamento entendem por casamento, pois nunca citam a rotina de cuidado com uma casa, educação dos filhos e a vida baseada no ceder mútuo de um casal, do quanto se sentem preparadas e maduras para praticar diariamente tudo isso. Não. Quando se fala nesse assunto todos os pensamentos se concentram na festa, no vestido, na recepção, na lista de presentes, na decoração da casa.... nos procedimento para iniciar o casamento, mas e sobre "o" casamento, depois das conveniências sociais: o que a maioria das mulheres pensam a respeito disso?
Não sei.
Cômico também é a verdade absoluta nas mentes masculinas que "toda mulher sonha em casar" como se eles estivessem isentos desse processo e fosse um futuro destinado as mulheres. Oi. Esse evento piegas só é possivel se houver a participação de, geralmente, um homem (Impressionate, não!),os quais, inclusive, são quem dão inicio a tudo isso quando oferecem de joelhos um anel a dita cuja. As mulheres são as que sonham e são eles os que PEDEM de joelhos. Ok.
As mulheres ao entrar na igreja vestidas de baiana, trêmulas e chorosas não esperam encontrar no altar por um ralo de banheiro, um balaio de milho, boletos bancários, não, quem está lá é... um homem!
Assim falou Zaratustra: " Dizei-me, pórem, irmãos: a mais estranha das coisas não será a melhor demostrada?".
Por isso gasto meu tempo demostrando o óbvio.
E para concluir faço minhas as palavras de Zarustra em: " matrimônio: assim chamo à vontade de dois de criarem um que seja mais do que o criaram. O matrimônio é o respeito recíproco: respeito recíproco que coincidem em tal vontade. Seja esse o sentido e a verdade do teu matrimônio; mas isso a que os que estão de mais, os supérfluos, chamam matrimônio, isso como se há de chamar?
Ai, que pobreza de alma entre dois! Que imundice de alma entre dois! Que mísera conformidade entre dois!
A tudo isso chamam matrimônio, e dizem que contraem estas uniões no céu!
Pois bem! Eu não quero esse céu dos supérfluos. Não; eu não quero essas bestas presas com redes divinas!
Fique-se também por lá bem longe de mim esse Deus que vem coxeando abençoar aquilo que não uniu!"

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Personalité


Boneca de retalhos. Vestido de azul predominante. Azul escuro: era o que podia enxergar. Cabelo de lã marrom, rosto de tecido rosado. Olhos de vidro. Tanto tempo habitando aquele canto. Assistiu muitas histórias á noite, contadas entre risinhos, criança enrolada em edredom, o sono que sempre vencia a guerra árdua com pálpebras persistentes, olhar fixo de mãos carinhosas e cuidadoras com leve toque de proprietária, no seu vai e vem constante, delicado e vagaroso por aqueles fios finos desenhando o amor diferente, amor de dona que nada tem e sabe disso. O beijo de leve na testa. Daquele canto assistiu o esforço do soletrar, o alvo demoradamente alcançado entre arquejos e repetições várias, mínimos longos momentos de pernas retraídas e coçar de pés de ansiedade por conseguir... De súbito, pressa, passos, gritos para demonstrar seu último feito. Encheu todo o quarto e casa com sua conquista, só os primeiros passos pode ser visto. Sabia de tantas opiniões, atitudes, descrições, experiências que em toda sua vida de boneca foi adquirida a custa de longa observação de seus olhos eternamente abertos. Não tinha nada. Ninguém sabe que ela reconhece a cor da borda do seu vestido, que ela assistiu momentos de intimidades maternais e, inclusive, decorou várias histórias e, às vezes, torcia silenciosamente pelas suas preferidas, riu diversas vezes das mesmas histórias e apesar da garotinha de fios finos não ter percebido em muitas ocasiões soprou a resposta do soletrar. Ninguém notou. Ela persistia em existir, raciocinar com seus miolos de pano nos dilemas da vida. Ela partilhava de uma família, tinha um lar, um quarto, um espaço na instante compartilhado com várias companheiras de sua espécie. Sim existia. Não criou nada grande, não tinha em seus traços, retalhos, composição, exceto o azul da borda de seu vestido, nada que a torna-se diferente de outras bonecas do ambiente. Tinha vida ao seu redor, tudo que poderia ocorrer na vida de um quarto ela participou como eficiente expectadora. A cabeça de fios finos aprendeu a soletrar habilmente, ler, escrever, aprendeu a crescer, aprendeu que não precisava mais de bonecas ou não era mais adequado tê-las por perto. O tempo sussurra esses estribilhos (das mudanças) aos ouvidos com tamanha sutileza que nem se aproveita o último brincar de boneca, voar no balanço. Gente cresce que nem nota... Nem nota a última brincadeira. Caixa no porão, lacrada como se ali habitasse um ser alta periculosidade. Uma hora isso iria acontecer, não era novidade, destino de toda boneca... Inexistir na vida de alguém, passar de objeto de extremo valor e cobiça por olhos e mãos inexperientes á representação do nada. A menina de fios finos seguia a rigor os paradigmas, anseios, dúvidas, atitudes de sua idade, assim como um dia correspondeu às expectativas de uma criança de sua época e cultura e um dia corresponderá às expectativas de adulta de uma forma ou de outra. E vai vivendo. Durante a transferência de habitar da boneca, esta lembrou de todos os momentos felizes que ocorreram naquele lugar, queria chorar, pelo menos uma vez exprimir o que se passava em sua cabeça, mas olhos de vidros não choram. Pensou que se pudesse ao menos andar teria uma vida brilhante, pois aprenderia a observar o comportamento de todos em todos os outros cômodos da casa e, quem sabe, adiante do grande portão que ultrapassou entre outras caixas uma certa manhã há muito tempo. Se pudesse, teria uma vida encantada, totalmente diferente de todas as bonecas da instante em que viveu e foi particularmente igual em rotina... Não teria enfeitado camas e instantes, tomado chazinho em copinhos plásticos em que nada há e morado em casinhas de madeira. Teria morado no escritório ou no banheiro. De todo jeito era morar e observar uma rotina de um lugar, mas só de imaginar observar a vida por ângulos incomuns para bonecas, se sua boca tivesse profundidade certamente estaria cheia d’água, de ânsia de vida. Enquanto a garota de cabelos de fios finos correspondia às expectativas dos anos, do espaço existente entre o céu e o solo, a boneca em seu céu negro desenhava estrelas brilhantes, furta-cores e sempre imaginava o que existia além delas.
Por, Hilda Elizabeth